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Guerra no Oriente Médio: Petróleo a US$ 200 Deixa de Ser Inacreditável e Passa a Ser Plausível

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Em meio a uma série de ataques dos Estados Unidos e de Israel que degradaram severamente as capacidades militares do Irã, um funcionário da segurança iraniana fez uma ameaça incomum. Ela não foi direcionada a alvos americanos ou israelenses, mas sim ao mercado global de petróleo.

“Preparem-se para o barril de petróleo chegar a US$ 200 (R$ 1.060)”, alertou Ebrahim Zolfaqari, porta-voz do comando militar Khatam al-Anbiya, em Teerã. “Não permitiremos que nem um litro de petróleo chegue aos EUA, aos sionistas e aos seus parceiros. Qualquer embarcação destinada a eles será um alvo legítimo.”

A declaração de Zolfaqari revela um equívoco sobre os fluxos de petróleo: os EUA e Israel importam pouco petróleo bruto do Golfo Pérsico, e cerca de 80% das exportações que passam pelo Estreito de Ormuz vão para a Ásia. Mas a ameaça era menos sobre geografia e mais sobre alavancagem. O Irã parece estar usando a pressão econômica global como ferramenta para distribuir custos pelo mundo, elevar a inflação, pressionar economias globais e enfraquecer o apoio político a um conflito prolongado.

Durante décadas, a República Islâmica utilizou a tomada de reféns — de diplomatas, civis e cidadãos com dupla nacionalidade — como instrumento de coerção estatal. Agora, parece aplicar a mesma lógica à energia. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do suprimento global de petróleo e uma parcela semelhante de GNL, tornou-se seu mais recente refém.

A crise do refém em Ormuz

E trata-se de um refém valioso. Antes da guerra, cerca de US$ 4 bilhões (R$ 21,2 bilhões) em mercadorias — de petróleo e GNL a metais, contêineres, hélio para semicondutores e alimentos — passavam diariamente pelo Estreito de Ormuz, destacando seu papel como uma das artérias mais críticas do comércio global.

Desde o início da crise, o petróleo Brent disparou, chegando brevemente perto de US$ 120 (R$ 636) por barril antes de recuar, à medida que alguns embarques continuaram e governos sinalizaram possíveis liberações de reservas estratégicas. Mas os preços voltaram a subir após uma escalada dramática: Israel atingiu o campo de gás South Pars, o maior do mundo, e Teerã respondeu com ataques à infraestrutura energética do Golfo, incluindo o complexo de GNL de Ras Laffan, no Catar. O Brent ultrapassou US$ 115 (R$ 609,5) antes de se estabilizar na faixa dos US$ 113 (R$ 598,9), refletindo o aumento dos temores de interrupções mais amplas na oferta.

Quando o “impensável” vira o novo normal

O choque de Ormuz nos mercados foi profundo porque esse cenário antes parecia impensável. Como afirmou Natasha Kaneva, analista do JP Morgan: “Em toda a história escrita do Estreito, ele nunca foi fechado, nunca… Para mim, não era apenas o pior cenário. Era um cenário impensável.”

A questão que agora se impõe aos mercados é outra antes impensável: o petróleo pode realmente chegar a US$ 200 (R$ 1.060)?

Scott Modell, CEO da Rapidan Energy e ex-oficial da CIA, disse: “Os impensáveis agora são pensáveis.” Segundo ele, “estamos a um ataque iraniano bem-sucedido a um grande ativo petrolífero de distância de um petróleo a US$ 150 (R$ 795). Ou, se os Houthis [grupo miliciano do Iêmen apoiado pelo Irã] entrarem no conflito e atingirem Yanbu, na costa saudita do Mar Vermelho, ou se Ormuz simplesmente permanecer congestionado nas próximas semanas, estamos caminhando para US$ 150.”

O caminho de escalada até US$ 200

Para que o petróleo alcance US$ 200, o mercado teria de passar de um cenário de interrupções e ansiedade para uma perda estrutural e sustentada de oferta. Isso normalmente significa retirar entre 5 milhões e 10 milhões de barris por dia do mercado global sem substituição imediata. O JP Morgan afirmou prever uma perda de 12 milhões de barris por dia de petróleo e derivados até o fim da próxima semana, embora grande parte possa voltar a circular caso o estreito seja reaberto.

Um dos cenários mencionados por Modell é um ataque dos EUA ou de Israel ao “ativo mais valioso” do Irã, a ilha de Kharg, onde mais de 90% das exportações de petróleo do país são processadas. Em resposta, Teerã poderia replicar sua estratégia recente após o ataque israelense a South Pars, “atingindo outros ‘ativos mais valiosos’ nos Estados do Golfo, especialmente Abqaiq, na Arábia Saudita, a maior instalação de processamento de petróleo do mundo.”

Um grande ataque ao petróleo dos Emirados Árabes Unidos ou da Arábia Saudita seria altamente desestabilizador. “Isso é ainda mais crítico hoje, quando a única capacidade ociosa do mundo está na Arábia Saudita e nos Emirados”, disse Modell.

Modell, que assessora grandes traders de energia e companhias nacionais de petróleo, acredita que os mercados ainda estão “relutantes em enxergar os piores cenários”. Segundo ele, “os mercados ainda acham que os EUA vão prevalecer ou que o presidente Trump declarará vitória e encontrará uma saída para encerrar o conflito, o que muitos chamam de opção TACO”, referindo-se ao termo criado por Robert Armstrong, do Financial Times: “Trump Always Chickens Out”.

Uma das razões pelas quais os preços do petróleo não dispararam tanto quanto o esperado é que parte do petróleo regional ainda chega ao mercado, incluindo barris iranianos. O Financial Times informou que o Irã exportou cerca de 24 milhões de barris pelo estreito desde o início da guerra, ou aproximadamente 1,5 milhão de barris por dia, gerando cerca de US$ 140 milhões (R$ 742 milhões) por dia. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse à CNBC que Washington está permitindo que esse petróleo continue fluindo para abastecer os mercados globais.

Uma guerra mais ampla toma forma

O ataque de Israel ao “ativo mais valioso” de gás do Irã alarmou capitais árabes do Golfo, pois aumentou a perspectiva de ataques recíprocos à infraestrutura energética. O Irã não demorou a reagir, atingindo o complexo de GNL de Ras Laffan, no Catar, o coração do sistema de exportação de gás liquefeito do país. Trata-se de um dos ataques mais significativos ao sistema energético da região nos últimos anos.

O ataque também impacta o petróleo, embora Ras Laffan seja um polo de gás, não um campo petrolífero. Quando uma instalação ligada a cerca de um quinto da oferta global de GNL é atacada, os traders passam a precificar um choque energético regional mais amplo.

O episódio reforçou a ansiedade dos mercados de que a guerra está evoluindo para um ataque em larga escala à infraestrutura energética do Golfo, ajudando a impulsionar o Brent acima de US$ 113 (R$ 598,9), à medida que investidores avaliam não apenas a perda de volumes de gás, mas o risco crescente de interrupções prolongadas em todo o sistema de hidrocarbonetos e um Estreito de Ormuz severamente comprometido.

O presidente Donald Trump interveio com uma mensagem na Truth Social. Ele afirmou publicamente que os Estados Unidos “não sabiam de nada” sobre o ataque israelense e enfatizou que o Catar não tinha conhecimento prévio. Ainda assim, relatos indicam que Washington estava ciente e apoiou a operação mais ampla. De todo modo, Trump estabeleceu duas linhas vermelhas — uma instruindo Israel a não atacar novamente South Pars, e outra mais dura advertindo o Irã a não atingir instalações de gás do Catar.

Ele escreveu: “NÃO HAVERÁ MAIS ATAQUES DE ISRAEL relacionados a este campo extremamente importante e valioso de South Pars, a menos que o Irã decida imprudentemente atacar um país muito inocente, neste caso o Catar — situação em que os Estados Unidos da América, com ou sem a ajuda ou consentimento de Israel, destruirão completamente todo o campo de gás de South Pars com uma força e poder que o Irã nunca viu antes.”

Não está claro se a intervenção de Trump alterará os cálculos do Irã. Richard Bronze, chefe de geopolítica da Energy Aspects, disse ao Financial Times que “as luvas ainda não foram retiradas quando se trata de atacar infraestrutura energética. Os iranianos estão atingindo uma lista crescente de alvos nos Estados do Golfo, e essa estratégia pode ter novos desdobramentos.”

Enquanto isso, aumentou — ainda que permaneça baixo — o risco de ataques retaliatórios ao Irã por parte dos países árabes do Golfo. Caso passem da defesa para a ofensiva, as implicações seriam profundas. O conflito evoluiria de interrupções pontuais para uma guerra regional em larga escala centrada no coração energético do mundo.

Mercados entram na zona do medo

Para os mercados de energia, essa mudança representa um choque de outra ordem. Os custos de seguro disparariam, os volumes de transporte seriam comprimidos e compradores asiáticos correriam atrás de suprimento. O petróleo deixaria de ser negociado com base em fundamentos e passaria a ser negociado com base no medo.

Ainda assim, petróleo a US$ 200 permanece um cenário de risco extremo, não o cenário base. Os preços não chegaram a esse nível porque ainda existem amortecedores: a Arábia Saudita redirecionou volumes significativos por oleodutos do Mar Vermelho até Yanbu, parte do petróleo iraniano continua chegando ao mercado e os traders ainda parecem acreditar que Washington pode garantir as rotas marítimas ou criar uma saída para o conflito.

“Ao transformar Ormuz em refém, o Irã está travando uma guerra econômica global”, disse Sultan Al-Jaber, ministro da Indústria e Tecnologia Avançada dos Emirados Árabes Unidos e CEO da ADNOC, ao Wall Street Journal. “A interrupção vai aumentar a inflação, desacelerar economias e afetar a vida cotidiana. As famílias acabarão pagando mais por alimentos.”

Os Emirados Árabes Unidos como epicentro

Os Emirados Árabes Unidos têm suportado uma parcela desproporcional da campanha iraniana. Segundo diversas estimativas, o país enfrentou mais mísseis e drones do que qualquer outro na região, atingindo desde bases aéreas até portos, instalações energéticas e até o distrito financeiro de Dubai. Isso não é por acaso. Os Emirados estão no cruzamento dos sistemas de comércio, finanças, aviação e energia do Golfo, tornando-se o alvo de maior impacto estratégico na região. As defesas aéreas interceptaram mais de 95% dos projéteis, mas mesmo ataques limitados podem repercutir nos mercados globais.

De certo modo, ao atingir os Emirados, o Irã está mirando a própria globalização. O país representa um dos modelos mais bem-sucedidos de integração à economia global: um nó altamente conectado que liga Oriente e Ocidente por meio de comércio, capital, logística e serviços. Ao concentrar ataques ali, Teerã busca impor custos não apenas a um país, mas ao sistema que ele representa.

O contraste entre os dois países também é marcante. O modelo dos Emirados é globalizado, diversificado e orientado para o futuro, em contraste com o sistema iraniano mais isolado, limitado por sanções, marcado por corrupção e dominado pelo Estado — um modelo que não consegue liberar o enorme talento e potencial de sua população. Nesse sentido, o conflito opõe duas visões distintas para o futuro da região.

Em outro nível, os Emirados, especialmente Dubai, sempre foram um hub para o comércio iraniano com o mundo. Autoridades do país teriam pressionado Washington contra ataques dos EUA ou de Israel ao Irã por temer instabilidade regional. A relação entre Emirados e Irã — tensa em alguns momentos, mas funcional e frequentemente benéfica para Teerã — agora está destruída.

Dinâmica semelhante ocorre em outros países da região com os quais o Irã mantinha laços políticos relativamente próximos, como Catar, Kuwait e até Omã. Todos sofreram ataques iranianos com mísseis e drones, e as relações estão agora abaladas.

A frente do Mar Vermelho se abre

Some-se a isso uma segunda frente marítima: o Mar Vermelho. Se os Houthis intensificarem ataques ao transporte comercial pelo estreito de Bab el-Mandeb, os fluxos globais de energia enfrentarão uma interrupção em duas frentes. As cargas teriam de contornar o Cabo da Boa Esperança, adicionando semanas às viagens, reduzindo a disponibilidade de petroleiros e elevando fortemente os custos de frete.

A combinação de um Ormuz em disputa e um Mar Vermelho instável estrangularia simultaneamente duas das principais artérias energéticas do mundo. Isso representaria não apenas um choque de oferta de petróleo, mas um choque de confiança. Os mercados conseguem absorver episódios de violência geopolítica, mas terão dificuldade em precificar a quebra dos gargalos que sustentam o comércio global de petróleo.

E, se o conflito se expandir para envolver diretamente produtores do Golfo, os mercados deixarão de precificar o risco ao fluxo e passarão a precificar o risco ao sistema. Nesse ponto, os mercados de energia deixam de se comportar como mercados e passam a se comportar como zonas de guerra.

É quando a ameaça de Zolfaqari de petróleo a US$ 200 pode deixar de soar alarmista e passar a parecer totalmente plausível.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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