Seguro contra abdução alienígena: a apólice (real) que marcou os anos 1990 – CQCS
- Em 1998, a londrina British Insurance lançou uma apólice que entrou para o folclore da indústria: seguro contra abdução por alienígenas.
- Não era sátira. Era contrato. Com prêmio, cláusulas, limites e, principalmente, critérios de prova extremamente rigorosos!
- A história é factual e virou um marco curioso do setor segurador no fim dos anos 1990.
O contexto: cultura pop, ufologia e um nicho disposto a pagar
O produto surgiu no rastro do boom cultural provocado por filmes como Independence Day e pela explosão do interesse em OVNIs na Europa e nos Estados Unidos.
A British Insurance identificou um público específico: entusiastas de ufologia que acreditavam genuinamente na possibilidade de abdução, e que estavam dispostos a pagar por proteção.
O valor do prêmio era relativamente baixo:
- cerca de £10 por mês, equivalente a aproximadamente US$ 15 à época.
- Em troca, o segurado poderia receber:
- entre US$ 1,5 milhão e US$ 3,2 milhões, dependendo da modalidade contratada;
- em versões ampliadas, valores ainda maiores, que poderiam ultrapassar essa faixa.
Estima-se que milhares de apólices foram vendidas ao longo dos anos 1990, com números que variam entre 4 mil e 60 mil contratos comercializados por empresas do segmento.
Como funcionava a reivindicação do seguro contra abdução alienígena?
A estrutura da apólice era engenhosa. Na prática, foi desenhada para tornar a aprovação de um sinistro praticamente impossível.
Para solicitar a indenização, o segurado deveria cumprir uma série de etapas:
1⃣ Notificação imediata
Comunicar a seguradora logo após o “retorno à Terra”, detalhando:
- data;
- local;
- circunstâncias;
- descrição da nave.
2⃣ Relato detalhado
- Apresentar um depoimento escrito contendo:
- suposta origem dos alienígenas;
- tipo de nave (“craft”);
- procedimentos realizados durante a abdução.
3⃣ Provas físicas e médicas
Fornecer:
- relatórios médicos de traumas físicos;
- exames psiquiátricos ambulatoriais;
- fotos ou vídeos do evento;
- declaração de testemunha independente.
4⃣ Teste poligráfico
O segurado deveria passar por detector de mentiras para validar a veracidade do relato.
5⃣ A cláusula mais curiosa
Algumas versões do contrato exigiam algo praticamente inatingível:
assinatura de um “alienígena autorizado a bordo”,
ou
identificação formal da nave, como placa ou comprovação física.
Essa exigência funcionava, na prática, como cláusula de exclusão quase automática.
6⃣ Investigação especializada
A seguradora poderia consultar especialistas em OVNIs antes de qualquer decisão.
Coberturas específicas e valores extraordinários do seguro contra abdução alienígena
O contrato previa diferentes níveis de cobertura:
Cobertura básica
Indenização entre US$ 1,5 milhão e US$ 10 milhões para:
- traumas médicos;
- danos psicológicos;
- e até “abuso sarcástico” por parte da família: segundo levantamento interno, mencionado de forma bem-humorada pela própria seguradora como algo recorrente em relatos.
Dupla indenização
Podia chegar a US$ 20 milhões em situações descritas como:
- “visitas conjugais alienígenas”;
- prole resultante da abdução;
- ou situações em que o segurado fosse tratado como “fonte de alimento”.
Exclusões
O contrato excluía:
- abduções intencionais;
- fraudes;
- segurados reincidentes (“frequent flyers”);
- qualquer inconsistência nas provas apresentadas.
Histórico de reivindicações de seguro contra abdução alienígena: sinistralidade zero
Apesar de milhares de apólices comercializadas, nenhuma reivindicação foi aprovada globalmente.
Empresas semelhantes no segmento relataram poucos pedidos formais. Uma agência britânica chegou a registrar dois “claims” desde 1987, em um universo de mais de 6 mil apólices; um deles com pagamento parcial de cerca de £160 mil.
No caso específico da British Insurance e iniciativas associadas, o número de aprovações foi zero.
O desenho contratual tornava a sinistralidade praticamente inexistente da época.
O que esse episódio revela sobre o mercado de seguros?
Apesar do tom inusitado, o caso ilustra fundamentos importantes do setor:
1⃣ Estrutura técnica sempre prevalece
Mesmo um risco extraordinário precisa ser delimitado contratualmente.
2⃣ Due diligence é inegociável
Prova, verificação e investigação fazem parte do processo, independentemente do objeto segurado.
3⃣ Seguros acompanham o imaginário social
Produtos surgem quando há percepção de risco, ainda que simbólica.
4⃣ Sinistralidade calculada
Ao exigir evidências praticamente impossíveis, a seguradora estruturou um risco com probabilidade estatística próxima de zero.
E hoje? Há paralelo com 2026?
Embora seguros contra abdução alienígena não sejam comuns atualmente, o episódio antecipa discussões modernas sobre:
- seguros para riscos raros;
- produtos hipersegmentados;
- coberturas paramétricas para eventos extremos;
- modelagem de riscos não tradicionais.
No Brasil, todos os produtos seguem regulamentação da Superintendência de Seguros Privados (Susep), que define regras claras para comercialização e pagamento de indenizações.
Curiosidade histórica e lição técnica
O seguro contra abdução alienígena entrou para a história como uma das iniciativas mais excêntricas da indústria seguradora.
Mas, por trás da curiosidade, há um aprendizado claro:
O seguro não valida a existência do risco, ele estrutura juridicamente a possibilidade de indenização, com critérios técnicos e verificáveis.
Enquanto a ciência segue investigando o universo, o mercado segurador continua fazendo o que sempre fez: transformar incertezas — reais ou percebidas — em contratos claros.
E você, contrataria uma apólice dessas?
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Seguro contra abdução alienígena: a apólice (real) que marcou os anos 1990 – CQCS
